Capítulo Doze: Fazendo as Perguntas Erradas
Assim que Harry abriu os olhos no dormitório dos meninos do primeiro ano da Corvinal, na manhã do seu primeiro dia de aulas em Hogwarts, ele soube que algo estava errado.
Estava quieto.
Quieto demais.
Ah, certo...
Havia um Feitiço Quietus na cabeceira de sua cama, controlado por um pequeno
botão de ajuste em deslize, a única coisa que permitia que os alunos
conseguissem dormir na Corvinal.
Harry se sentou
e olhou ao redor, na expectativa de ver os outros se levantando...
O dormitório
estava vazio.
As camas,
bagunçadas e abandonadas.
O sol entrava
pela janela em um ângulo um tanto alto.
Seu Aquietador
estava ligado no máximo.
E seu
despertador mecânico ainda funcionava, mas o alarme estava desligado.
Ele dormira até
9:52, aparentemente. Apesar de seus melhores esforços para sincronizar seu
ciclo de sono de 26 horas com sua chegada em Hogwarts, ele não conseguira
dormir na noite anterior até por volta de 1 da manhã. Ele planejara acordar às
7 com os outros estudantes, ele podia aguentar ficar um pouco cansado no seu
primeiro dia desde que conseguisse alguma solução mágica até o dia seguinte.
Mas agora, perdera o café da manhã. E sua primeiríssima aula em Hogwarts,
Herbologia, havia começado uma hora e vinte e dois minutos atrás.
A raiva
lentamente surgia em seu âmago. Ora, que pegadinha excelente. Desligar seu
despertador. Aumentar o Aquietador. E deixar o Importante Harry Potter perder
sua primeira aula, e seu acusado de ser um dorminhoco.
Quando Harry
descobrisse quem estava por trás daquilo...
Não, isso só
podia ter sido feito com a cooperação de todos os doze outros meninos no
dormitório da Corvinal. Todos o teriam visto dormindo. Todos o haviam deixado
dormir demais.
A raiva foi
lavada, substituída por confusão e um horrível sentimento de traição. Eles
tinham gostado dele. Ou ele pensou que sim. Noite passada, ele achou que
tinham gostado dele. Por quê...
Quando Harry
saiu da cama, ele viu um pedaço de papel do lado de fora de sua cabeceira.
Nele, estava a mensagem:
Meus companheiros corvinais,
Este foi um dia especialmente longo.
Por favor, deixem-me dormir e não se preocupem com o meu café da manhã. Não me esqueci de minha primeira aula.
Atte.,
Harry Potter.
E Harry ficou
ali, paralisado, como se água gelada corresse por suas veias.
O papel estava
escrito em sua caligrafia, com sua própria lapiseira.
E ele não se
lembrava de ter escrito aquilo.
E... Harry
apertou os olhos para o papelzinho. A não ser que estivesse imaginando aquilo,
as palavras “Não me esqueci” estavam escritas em um estilo diferente, como se
estivesse tentando lhe dizer ago...?
Será que sabia
que teria a memória apagada? Será que ficara acordado até tarde, cometera algum
crime ou atividade oculta, e então... mas ele não sabia o Feitiço
Obliviate... será que alguém... o quê...
Um pensamento
ocorreu a Harry. Se ele soubesse que teria a memória apagada...
Ainda de
pijama, Harry correu ao redor da cama e foi até seu malão, pressionou o dedão
na fechadura, puxou sua bolsa de briba, enfiou a mão nela e disse “Bilhete para
mim mesmo”.
E outro pedaço
de papel voou para sua mão.
Harry o pegou,
encarando-o. Também estava com sua caligrafia. O bilhete dizia:
Caro Eu,
Por favor, jogue o jogo. Você só
pode jogar este jogo uma vez na vida. Esta é uma oportunidade insubstituível.
Código de reconhecimento 927, eu sou
uma batata.
Atte.,
Você.
Harry acenou vagarosamente. “Código de reconhecimento 927, eu sou uma batata” era de fato a mensagem que planejara anteriormente – alguns anos atrás, enquanto assistia TV – que apenas ele saberia. Se tivesse que identificar alguém como sendo ele mesmo, ou algo do gênero. Só por garantia. Esteja Preparado.
Harry não podia
confiar na mensagem, podia haver outros feitiços envolvidos. Mas ela
eliminava a possibilidade de ser uma simples pegadinha. Ele com certeza
escrevera aquilo, e com certeza não se lembrava disso.
Encarando o
papel, Harry percebeu que havia algo escrito no verso.
Ele virou o bilhete.
O verso dizia:
INSTRUÇÕES PARA O JOGO:
você não sabe
as regras do jogo
você não sabe o
que está em jogo
você não sabe o
objetivo do jogo
você não sabe
quem controla o jogo
você não sabe
como terminar o jogo
Você começa com
100 pontos.
Comece.
Harry encarou
as “instruções”. Este lado não fora escrito à mão; a escrita era perfeitamente
regular, portanto, artificial. Parecia ter sido escrita por uma Pena de
Repetição Rápida, como a que comprara para usar em seus estudos.
Ele não tinha ideia
alguma do que estava acontecendo.
Bem... o
primeiro passo era se vestir e ir comer. Ou talvez devesse trocar a ordem dos
fatores. Seu estômago parecia muito vazio.
Ele perdera o
café da manhã, é claro, mas estava Preparado para aquela eventualidade, tendo-a
previsto. Harry enfiou a mão na bolsa e disse “Barrinhas para Lanchar”,
esperando receber a caixa de barrinhas que havia comprado antes de partir para
Hogwarts.
O que saltou
para sua mão não parecia ser uma caixa de barrinhas de cereal.
Quando Harry
puxou a mão, viu duas pequenas barras de chocolate – nem de longe o suficiente
para ser uma refeição – com um bilhetinho acoplado, e no bilhete havia a mesma
caligrafia das instruções de jogo.
A mensagem
dizia:
|
TENTATIVA FALHA: |
-1 PONTO |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
99 |
|
ESTADO FÍSICO: |
AINDA COM FOME |
|
ESTADO MENTAL: |
CONFUSO |
– Gleehhhh – A
boca de Harry emitiu um som sem nenhuma intervenção ou decisão da parte do seu
consciente.
Ele ficou ali
parado por um minuto.
Um minuto depois, aquilo ainda não fazia sentido, e ele ainda não tinha nenhuma ideia do que estava acontecendo, e seu cérebro nem mesmo começara a gerar nem mesmo hipóteses, como se sua mente estivesse de “mãos atadas” e não conseguisse fazer nada.
Seu estômago,
que tinha as próprias prioridades, sugeriu a possibilidade de uma investigação
experimental.
– Ah... – Harry
disse para o quarto vazio. – Será que não posso gastar outro ponto e ganhar de
volta minha caixa de barras de cereais?
Houve apenas
silêncio.
Harry enfiou a
mão na bolsa novamente e disse “Caixa de barras de cereal”.
Uma caixa que
parecia ter a forma correta pulou para sua mão... mas estava leve demais, e
estava aberta, e estava vazia, e o bilhete acoplado a ela dizia:
|
PONTOS GASTOS: |
1 |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
98 |
|
VOCÊ ADQUIRIU: |
UMA CAIXA DE BARRAS DE CEREAL |
– Eu gostaria
de gastar um ponto e obter de volta as próprias barras de cereal – disse
Harry.
Novamente,
silêncio.
Harry enfiou a
mão na bolsa e disse “barras de cereal”.
Nada veio.
Harry deu de
ombros decepcionado, e foi para o armarinho ao lado de sua cama que lhe fora
atribuído, para obter suas vestes de bruxo para o dia.
No chão do
armário, sob as vestes, estavam as barras de cereal, e um bilhete:
|
PONTOS GASTOS: |
1 |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
97 |
|
VOCÊ ADQUIRIU: |
6 BARRAS DE CEREAL |
|
VOCÊ AINDA ESTÁ VESTINDO: |
PIJAMA |
|
NÃO COMA ENQUANTO ESTIVER DE PIJAMA VOCÊ RECEBERÁ UMA PENALIDADE DE
PIJAMA |
|
E agora eu sei
que quem quer que controle este jogo é louco.
– Eu chuto que
o jogo seja controlado por Dumbledore – disse Harry em voz alta. Talvez desta
vez ele poderia estabelecer um novo recorde de velocidade para entender as
coisas.
Silêncio.
Mas Harry começara a identificar um padrão; o bilhete estaria no próximo lugar que olhasse. Então olhou embaixo da cama.
HA! HA HA HA HA HA!
HA HA HA HA HA HA!
HA! HA! HA! HA! HA! HA!
DUMBLEDORE NÃO
CONTROLA O JOGO
CHUTE RUIM
CHUTE PÉSSIMO
-20 PONTOS
E VOCÊ AINDA
ESTÁ DE PIJAMA
É SUA QUARTA JOGADA
E VOCÊ AINDA ESTÁ DE PIJAMA
|
PENALIDADE DE PIJAMA: |
-2 PONTOS |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
75 |
Bem, era de
fato um desafio. Aquele era apenas o seu primeiro dia de aulas, e uma vez que
Dumbledore fosse descartado das possibilidades, ele não sabia o nome de mais
ninguém que fosse louco assim.
Movendo o corpo
mais ou menos no automático, Harry pegou um conjunto de vestes e uma roupa de
baixo, puxou o compartimento de caverna do malão (ele era uma pessoa muito
privativa, e alguém poderia entrar no quarto), se vestiu, e então emergiu
novamente para guardar o pijama.
Harry pausou
antes de puxar a gaveta do armário em que guardava os pijamas. Se o padrão se
mantivesse...
– Como posso
ganhar mais pontos? – proferiu em voz alta.
E então puxou a
gaveta.
HÁ OPORTUNIDADES
PARA FAZER O BEM POR TODOS OS LADOS
MAS AS TREVAS ESTÃO ONDE PRECISA HAVER LUZ
|
CUSTO DA PERGUNTA: |
1 PONTO |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
74 |
CUECA MANEIRA
FOI SUA MÃE QUE
ESCOLHEU?
Harry amassou o
papel dentro da mão, seu rosto rubro. O xingamento de Draco lhe veio à mente. Filho
de um sangue-ruim–
A esta altura,
ele sabia que era melhor não dizer isso em voz alta. Ele provavelmente sofreria
uma Penalidade por Palavrão.
Harry prendeu a
bolsa de briba e varinha ao corpo. Ele abriu a embalagem de uma das barras de
cereal e a jogou na lixeira do quarto, onde aterrissou sobre um Sapo de
Chocolate quase intacto, um envelope amassado e um bocado de papel de embrulho
verde e vermelho. Ele guardou as demais barrinhas na bolsa de briba.
Ele deu uma
última, desesperada, e fútil varrida com os olhos à sua volta, em busca de
pistas.
E então, Harry
saiu do dormitório, comendo no caminho, em busca das masmorras da Sonserina.
Pelo menos ele achava que era sobre isso que aquela linha falava.
Tentar navegar
pelos corredores de Hogwarts era... provavelmente, não tão ruim quanto
caminhar por uma pintura de Escher1, já que esse era o tipo de coisa
que se dizia pelo efeito retórico, e não por ser verdadeiramente assim.
Pouco tempo
depois, Harry refletia que, na verdade, uma pintura de Escher teria tanto
vantagens quanto desvantagens quando comparada a Hogwarts. Desvantagens: Sem
orientação gravitacional consistente. Vantagens: Pelo menos as escadas não se
moviam ENQUANTO VOCÊ
AINDA ESTAVA NELAS.
Harry
originalmente subira quatro lances de escada para chegar ao dormitório. Após
descer nada menos que doze lances sem chegar nem um pouco perto das masmorras,
Harry concluíra que (1) uma pintura
de Escher seria mamão com açúcar em comparação, (2) ele de alguma forma estava mais alto no
castelo do que quando começara a andar, e (3) ele estava tão completamente perdido que não se surpreenderia
se olhasse pela próxima janela e visse duas luas no céu.
O Plano Reserva
A era parar e perguntar o caminho, mas parecia haver uma ausência extrema de
pessoas andando por ali, como se os malditos estivessem todos assistindo as
aulas como deviam, ou algo assim.
O Plano Reserva
B...
– Estou perdido
– Harry declarou em voz alta. – Será que, hum, o espírito do Castelo de
Hogwarts pode me ajudar ou coisa assim?
– Eu não acho
que o castelo tenha um espírito – observou uma velhinha enrugada em uma das
pinturas nas paredes. – Vida, talvez, mas não um espírito.
Houve uma pausa
breve.
– Você é... –
Harry começou, e então fechou a boca. Pensando melhor, ele NÃO iria perguntar à
pintura se ela tinha uma consciência plena no sentido de ter consciência da
própria consciência.
– Meu nome é
Harry Potter – disse sua boca, meio que no automático. Também mais ou menos
automaticamente, Harry ergueu sua mão em direção à pintura.
A mulher na
imagem baixou os olhos para a mão de Harry e ergueu as sobrancelhas.
Lentamente, a
mão caiu novamente e repousou ao lado do corpo de Harry.
– Sinto muito, –
disse Harry – eu meio que sou novo aqui.
– Posso
perceber, jovem ravino. Aonde gostaria de ir?
Harry hesitou.
– Não tenho
certeza – disse.
– Então talvez
já esteja lá.
– Bem, aonde
quer que eu esteja indo, não acho que seja aqui... – Harry fechou a
boca, consciente do quanto soava estúpido. – Deixe-me começar novamente. Estou
jogando um jogo, mas não sei quais são as regras... – Isso também não ia
funcionar. – Okay, terceira tentativa. Estou procurando por oportunidades para
fazer o bem para ganhar pontos, e tudo o que tenho é essa dica críptica sobre
como as trevas estão onde deveria haver luz, então eu estava tentando descer,
mas pareço estar sempre subindo ao invés disso...
A velha senhora
na pintura olhou para ele de forma cética.
Harry suspirou.
– Minha vida
tende a ser um tanto peculiar.
– Seria correto
afirmar que você não sabe aonde está indo ou por que está tentando ir até lá?
– Extremamente
correto.
A senhora
assentiu.
– Não estou
certa de que estar perdido é seu maior problema, meu jovem.
– Verdade, mas
diferentemente dos problemas mais importantes, esse é um problema que posso
compreender e resolver e uau essa conversa está se tornando uma metáfora
para a existência humana, eu nem havia percebido o que estava acontecendo até
agora.
A velha olhou
para Harry, avaliando-o.
– Você é
um excelente ravino, não é? Por um momento me peguei duvidando. Bem, como regra
geral, se continuar a virar à esquerda, acabará descendo.
Isso parecia
estranhamente familiar, mas Harry não conseguia se recordar onde havia ouvido
aquilo antes.
– Hum... a
senhora parece uma pessoa muito inteligente. Ou uma pintura de uma pessoa muito
inteligente... enfim, já ouviu falar de um jogo misterioso que se pode jogar
apenas uma vez, e ninguém te informa das regras?
– A vida –
respondeu a senhora prontamente. – Esta é um dos enigmas mais fáceis que já
ouvi.
Harry piscou.
– Não, – ele
retrucou devagar – quero dizer que eu literalmente recebi um bilhete e tal,
dizendo que eu tinha que jogar, mas que não me diriam as regras, e tem alguém
deixando pedaços de papel me dizendo quantos pontos eu já perdi por violar as
regras, tipo, menos dois pontos como penalidade por estar de pijama. A senhora
conhece alguém em Hogwarts que seja louco e poderoso o suficiente para fazer
algo assim? Além do Dumbledore, quero dizer?
A pintura
soltou um suspiro.
– Sou apenas
uma pintura, meu jovem. Eu me recordo de Hogwarts como era – não de Hogwarts
como é. Tudo que posso lhe dizer é que, se isso fosse um enigma, a resposta
seria que o jogo é a vida, e que apesar de não fazermos as regras nós mesmos,
aquele que concede ou retira pontos é sempre você mesmo. Se não for uma
metáfora, mas a realidade, então eu não sei lhe responder.
Harry fez uma
reverência profunda para a pintura.
– Obrigado,
minha senhora.
A senhora fez
uma rápida reverência para ele.
– Eu gostaria
de dizer que me recordarei de você com carinho – disse ela –, mas provavelmente
não me recordarei de nada. Adeus, Harry Potter.
Ele se curvou
novamente em resposta, e começou a descer o próximo lance de escadas.
Quatro curvas à
esquerda mais tarde, ele se viu encarando um corredor que acabava,
abruptamente, em um amontoado confuso de rochas – como se houvesse ocorrido um
desmoronamento, apesar de as paredes e o teto ao redor estarem intactos e serem
feitos de pedras regulares como o resto do castelo.
– Certo, –
disse Harry para o ar – eu desisto. Estou pedindo outra dica. Como eu chego
aonde quero ir?
– Uma dica! Uma
dica, você disse?
A voz animada
veio de uma pintura na parede não muito distante dali, desta vez um retrato de
um homem de meia-idade com as vestes cor-de-rosa mais berrantes que Harry
jamais vira ou imaginara. No retrato, ele usava um chapéu pontudo velho e
murcho, com um peixe (não o desenho de um peixe, perceba, mas um peixe real).
– Sim! – Harry
disse. – Uma dica! Uma dica, eu digo! Mas não uma dica qualquer, estou
em busca de uma dica específica, para um jogo que estou jogando...
– Sim, sim! Uma
dica para o jogo! Você é Harry Potter, não é? Me chamo Cornélio Flubberwalt!
Ouvi de Erin, a Consorte, que ouviu de Lorde Weaselnose, que ouviu de, ah, já
me esqueci. Mas era uma mensagem para eu dar a você. Eu! Ninguém
me dá atenção há não sei nem quanto tempo, talvez desde sempre, tenho estado
preso aqui embaixo nesse maldito corredor velho e inútil – uma dica! Eu tenho a
sua dica! E vai lhe custar apenas três pontos! Você vai querer?
– Sim! Eu
quero! – Harry tinha ciência de que provavelmente deveria manter seu sarcasmo
sob controle, mas parecia não conseguir se conter.
– As trevas
podem ser encontradas entre as salas de estudos verdes e a sala de
Transfiguração de McGonagall! Esta é a dica! E ande logo, você é mais lerdo que
uma caixa de lesmas! Agora você tem 61 pontos! Este é o resto da mensagem!
– Obrigado –
disse Harry. Ele estava realmente agarrado nesse jogo. – Hum... imagino que não
saiba de onde a mensagem se originou, ou sabe?
– Ela foi dita
por uma voz cavernosa que bradou de dentro de uma fenda no próprio ar, uma
fenda que se abria por sobre um abismo de chamas! Foi o que me disseram!
Harry não tinha
mais certeza, a este ponto, se esse era o tipo de coisa sobre a qual deveria
manter o ceticismo, ou o tipo de coisa que devia só deixar de lado.
– E onde posso
encontrar a linha entre as salas de estudos verdes e a sala de Transfiguração?
– Simplesmente
dê a volta e pegue a esquerda, direita, para baixo, para baixo, direita,
esquerda, direita, para cima, e esquerda de novo, e estará na sala de estudo
verde, e se entrar e for reto para o outro lado encontrará um grande corredor
curvo que avança até uma interseção, e à direita da interseção você verá um
corredor longo e reto que vai dar na sala de aula de Transfiguração! – A
pintura do homem de meia-idade pausou. – Pelo menos era assim quando eu
estava em Hogwarts. Hoje é uma segunda-feira em um ano ímpar, correto?
– Lápis e
papeleira – disse Harry para a bolsa. – Er, cancela essa, papel e lapiseira. –
Ele ergueu os olhos. – Poderia repetir, por favor?
Após se perder
mais duas vezes, Harry sentiu que começava a entender a regra básica de
navegação pelo labirinto-vivo que era Hogwarts, que era, no caso, pedir
informações às pinturas. Se isso refletia algum tipo de lição de vida
incrivelmente profunda, ele não sabia qual era.
A sala de
estudos verde era um espaço surpreendentemente agradável, com a luz do sol se
derramando por janelas de vitrais verdes que exibiam dragões em cenas calmas e
pastoris. Havia cadeiras que pareciam extremamente confortáveis, e mesas que
pareciam muito adequadas para estudar na companhia de um a três colegas.
Harry não podia
realmente atravessar reto o cômodo até a porta do outro lado. Havia estantes
embutidas nas paredes, e ele precisava ir até elas e ler alguns dos títulos,
para que não perdesse seu direito ao nome da família Verres. Mas ele o fez
rapidamente, em consideração ao aviso de que estava muito lento, e então saiu
do outro lado.
Ele estava
caminhando pelo “grande corredor curvo” quando ouviu a voz de um menino
chorando.
Em momentos
como este, Harry tinha uma desculpa para correr disparado, sem nenhuma
preocupação em guardar energia ou fazer um aquecimento adequado ou se preocupar
em atropelar as coisas, uma fuga frenética repentina que quase teve um final
igualmente abrupto quando ele quase atropelou um grupo de seis lufanos do
primeiro ano...
... que estavam
amontoados juntos, um tanto assustados e com cara de que queriam
desesperadamente fazer alguma coisa, mas não sabiam o quê, o que provavelmente
tinha algo a ver com o grupo de cinco sonserinos mais velhos que pareciam estar
cercando um outro garoto.
Harry de
repente ficara extremamente bravo.
– Com
licença! – gritou Harry a plenos pulmões.
Talvez não
tivesse sido necessário. As pessoas já estavam encarando-o. Mas certamente
servira para interromper o ato.
Harry passou
pelo grupinho de lufanos em direção aos sonserinos.
Eles olharam
para baixo e para ele, com expressões que variavam de raiva, a diversão, a
alegria pura.
Parte do
cérebro de Harry gritava em pânico que esses eram meninos muito mais velhos e
maiores, que podiam achatá-lo sob os pés.
Outra parte lhe
dizia secamente que qualquer um pego pisoteando o Menino-Que-Sobreviveu estaria
se metendo num mundo de problemas, especialmente se fossem um grupo de
sonserinos mais velhos e houvesse sete lufanos assistindo, e que a chance de
eles lhe causarem algum dano permanente na presença de testemunhas era quase
zero. A única arma real que os meninos mais velhos tinham contra ele era o seu
próprio medo, se ele permitisse isso.
E então, Harry
viu que o menino que eles haviam cercado era Neville Longbottom.
É claro.
Era isso. Harry
decidira-se a se desculpar humildemente a Neville, e isso significava que
Neville era dele, como se atreviam?
Harry ergueu o
braço, agarrou Neville do meio deles e o puxou com toda a força para
fora do cerco de sonserinos, e o menino tropeçou chocado quando Harry o puxou e
quase no mesmo movimento se colocou no meio dos outros pelo mesmo vão.
E então Harry
ficou no meio dos sonserinos, onde Neville estivera, olhando para os meninos
muito mais velhos, maiores, e mais fortes.
– Olá – disse
Harry –, eu sou o Menino-Que-Sobreviveu.
Houve uma pausa
constrangida. Ninguém parecia saber para que lado a conversa devia seguir
depois disso.
Os olhos de
Harry desceram e recaíram sobre livros e papéis espalhados pelo chão. Oh, o
velho jogo de deixar o menino tentar pegar suas coisas e então bater em suas
mãos para que as derrubasse de novo. Harry não se lembrava de já ter passado
por isso, mas tinha uma boa ideia de como era, e essa ideia o estava
enfurecendo. Bem, uma vez que a situação em si estivesse resolvida, seria fácil
para Neville voltar e pegar os materiais, desde que os sonserinos mantivessem
todo o foco nele e não pensassem em fazer nada aos livros.
Infelizmente, a
trajetória dos seus olhos o traiu.
– Ooh, – disse
o maior dos meninos – o menininho queria os livrinhos...
– Cala a boca. –
Harry disse friamente. Mantenha-os desestabilizados. Não faça o que esperam.
Não caia em um padrão que permita que te provoquem. – Isso é parte de algum
plano incrivelmente inteligente que vai dar a vocês alguma vantagem, ou é
apenas uma desgraça sem propósito para o nome de Salazar Sonserina, já que–
O grandão
empurrou Harry Potter com força, e ele caiu para fora do círculo de sonserinos,
esparramado no chão duro de pedras de Hogwarts.
E os sonserinos
riram.
Harry se ergueu
no que parecia câmera lenta. Ele ainda não sabia usar a varinha, mas não havia
razão para que aquilo o impedisse, sob as atuais circunstâncias.
– Eu gostaria
de pagar quantos pontos forem necessários para me livrar dessa pessoa –
Harry disse, apontando com o dedo para o sonserino grandão.
Então, Harry
ergueu a outra mão, disse “Abracadabra”, e estalou os dedos.
Ao ouvir a
palavra Abracadabra, dois dos lufanos berraram, incluindo Neville, três
outros sonserinos pularam desesperadamente para fora da trajetória do dedo de
Harry, e o grandão cambaleou para trás com uma expressão de choque, uma cor
vermelha subitamente tingindo seu rosto, pescoço e peito.
Harry não estava
esperando por aquilo.
Vagarosamente,
o sonserino grandalhão levou a mão à cabeça, e removeu a forma de torta de
cereja que acabara de se desfazer em cima dele. O grandão segurou a forma na
mão por um momento, encarando-a, e então largou-a no chão.
Provavelmente
não era o melhor momento para um dos meninos da Lufa-Lufa começar a rir, mas
era exatamente isso que um deles estava fazendo.
E então Harry
viu o papel no fundo da forma metálica.
– Pera aí, –
Harry disse, e correu à frente para pegar o papelzinho – esse recado é pra mim,
eu acho...
– Você –
rosnou o sonserino grandalhão –, você, vai, pagar...
– Olha
só pra isso! – Berrou Harry, brandindo o papel na cara do aluno mais velho. –
Quero dizer, olha só! Você acredita que eu tenho que pagar 30 pontos
pelo envio e manuseio de uma mísera torta? 30 pontos! Eu levei um prejuízo
nesse negócio mesmo depois de resgatar um menino inocente sendo atormentado! E
taxas de armazenamento? Custos de transporte? Custos de carreta? Como que tem custos
de carreta numa torta?
Houve mais uma
daquelas pausas constrangidas. Harry lançou pensamentos assassinos na direção
do menino lufano que não conseguia parar de rir, aquele idiota iria lhe causar
sérios danos.
Harry deu um
passo para trás e lançou aos sonserinos sua melhor encarada letal.
– Agora vão
embora, ou vou continuar a fazer sua existência mais e mais surreal até que se
vão. E deixe-me avisá-los... mexer com a minha vida tende a deixar a sua
vida... um tanto cabeluda. Entenderam?
Com um único
movimento terrível, o brutamontes arrancou a varinha do bolso para apontá-la ao
Harry, e no mesmo instante foi atingido do outro lado da cabeça com outra
torta, desta vez de mirtilos de um azul intenso.
O recado nesta
torta era um tanto grande, e bem legível.
– Você talvez
queira ler o recado dessa torta – observou Harry. – Eu acho que é para você
desta vez.
O sonserino
ergueu a mão devagar, pegou a forma da torta, virou-a com um som molhado de
recheio de mirtilo caindo no chão, e leu o recado, que dizia:
AVISO
NENHUMA MAGIA PODE SER
UTILIZADA NO JOGADOR
ENQUANTO O JOGO ESTÁ EM PROGRESSO
INTERFERÊNCIAS
ADICIONAIS NO JOGO
SERÃO REPORTADAS ÀS AUTORIDADES DO JOGO
A expressão de
pura perplexidade na cara do sonserino era pura arte. Harry pensou que começava
a gostar desse Mestre do Jogo.
– Olha, – disse
Harry – que tal pararmos por aqui? Eu acho que as coisas estão saindo do
controle. Que tal vocês voltarem para a Sonserina, eu voltar para a Corvinal, e
a gente se acalmar um pouco, tudo bem?
– Eu tenho uma
ideia melhor – sibilou o grandão. – Que tal você acidentalmente quebrar todos
os dedos?
– E, como em
nome de Merlin, você vai conseguir criar um acidente crível depois de fazer uma
ameaça na frente de uma dúzia de testemunhas, seu imbecil–
O sonserino
grandalhão ergueu a mão vagarosa e deliberadamente na direção das mãos de
Harry, e Harry congelou onde estava, a parte do seu cérebro que notara a idade
e força do menino finalmente se fazendo ouvir, berrando, QUE DIABOS EU ESTOU
FAZENDO?
– Espera! –
Disse outro dos sonserinos, a voz agora em pânico. – Pare, você não pode fazer
isso de fato!
O grandão o
ignorou, prendendo a mão direita do Harry firmemente na sua esquerda, e pegando
o dedo indicador de Harry com a mão direita.
Harry encarou o
sonserino nos olhos. Parte de Harry gritava que não era para isso acontecer,
que não podia acontecer, que os adultos jamais deixariam algo assim
acontecer de verdade...
Vagarosamente,
o sonserino começou a dobrar o seu dedo indicador para trás.
Ele ainda não
quebrou o meu dedo, e eu não posso mover nem um músculo até que ele o faça. Até
lá, isso é só mais uma tentativa de me incitar medo.
– Pare! – disse
o sonserino que objetara antes. – Pare com isso, é uma péssima ideia!
– Eu concordo –
disse uma voz gelada. A voz de uma mulher mais velha.
O sonserino
grandalhão largou a mão de Harry e pulou para trás como se houvesse se
queimado.
– Professora
Sprout! – chamou um dos lufanos, soando como se fosse a pessoa mais feliz do
mundo.
Entrando no
campo de visão de Harry enquanto ele virava, vinha uma mulher atarracada com
cabelos grisalhos encaracolados e bagunçados, e roupas cobertas de terra. Ela
apontou um dedo acusatório aos Sonserinos.
– Expliquem-se.
– Ela disse. – O que estão fazendo com os alunos da minha casa e... – Ela olhou
para ele – Meu querido aluno, Harry Potter.
Uh oh. É
verdade, foi a aula DELA que eu perdi hoje de manhã.
– Ele ameaçou
nos matar! – soltou um dos sonserinos, o mesmo que pedira ao outro que parasse.
– O quê? –
Harry disse, inexpressivo – Eu não fiz nada disso! Se eu fosse matá-los,
eu não faria ameaças públicas primeiro.
Um terceiro
sonserino riu, impotente, e então parou abruptamente quando os outros colegas
lhe lançaram olhares assassinos.
A Professora
Sprout adotara uma expressão um tanto cética.
– E que ameaça
de morte ele fez, exatamente?
– A Maldição da
Morte! Ele fingiu lançar a Maldição da Morte na gente!
A Professora
Sprout virou-se para Harry.
– Sim, de fato
uma ameaça terrível vinda de um menino de onze anos. Apesar de não ser algo que
você jamais devesse fazer nem de brincadeira, Harry Potter.
– Eu nem mesmo
sei as palavras para a Maldição da Morte – disse Harry prontamente –, e
eu nem mesmo puxei a varinha em momento algum.
Agora a
Professora Sprout lançava seu olhar cético para Harry.
– Eu acho que
esse garoto atingiu a si mesmo com duas tortas, então.
– Ele não usou
a varinha! – soltou um dos jovens lufanos – Eu também não sei como ele fez, ele
só estalou os dedos, e a torta veio!
– É mesmo? –
disse a Professora Sprout, após uma pausa. Ela puxou a própria varinha. – Não
vou dar uma ordem, já que você parece ser a vítima aqui, mas se importaria se
eu checasse a sua varinha para verificar isso?
Harry puxou a
varinha.
– O que eu prec–
– Prior
Incantato – disse Sprout. Ela franziu o cenho. – Que estranho, sua varinha
parece não ter sido usada de forma alguma.
Harry deu de
ombros.
– E não foi. Eu
só comprei minha varinha com os meus livros alguns dias atrás.
Sprout
assentiu.
– Então temos
um caso claro de mágica acidental causada por um menino que se sentiu ameaçado.
E as regras afirmam claramente que não deve ser responsabilizado por isso. Já vocês...
– e ela se virou para os sonserinos. Seus olhos baixaram deliberadamente para
os livros de Neville, jogados pelo chão.
Houve um
silêncio longo, durante o qual ela encarou os cinco sonserinos.
– Três pontos a
menos para a Sonserina, para cada um – disse ela, enfim – E seis a menos
para ele – e apontou para o menino coberto de torta. – Nunca mais
mexam com os meus lufanos, ou o meu aluno, Harry Potter. Agora, vão.
Ela não
precisou se repetir; os sonserinos se viraram e foram embora rapidamente.
Neville se
aproximou e começou a recolher os livros. Ele parecia estar chorando, mas só um
pouquinho. Podia ser do choque atrasado, ou poderia ser por os outros meninos o
estarem ajudando.
– Muito
obrigado, Harry Potter – a Professora Sprout lhe disse. – Sete pontos para a
Corvinal, um para cada lufano que ajudou a proteger. E não direi mais nada.
Harry piscou.
Ele esperara algo mais como uma palestra sobre se manter fora de problemas, e
uma bronca severa por perder sua primeira aula.
Talvez ele devesse
mesmo ter ido para a Lufa-Lufa. A Sprout era legal.
– Scourgify
– disse Sprout para a sujeira de torta no chão, que prontamente desapareceu.
E então, se
foi, caminhando pelo corredor que levava à sala de estudos verde.
– Como você fez
aquilo? – sibilou um dos meninos da Lufa-Lufa assim que ela se fora.
Harry sorriu
presunçosamente.
– Eu consigo
fazer qualquer coisa acontecer apenas estalando os meus dedos.
Os olhos do
menino se arregalaram.
– Mesmo?
– Não – disse
Harry –, mas quando você contar essa história para os outros, conte para a
Hermione Granger do primeiro ano da Corvinal, ela tem uma anedota que você pode
achar divertida. – Ele não fazia ideia do que estava acontecendo, mas não ia
desperdiçar a oportunidade de adicionar essa situação à sua lenda em formação. –
Oh, e o que era aquilo sobre a Maldição da Morte?
O menino lhe
lançou um olhar esquisito.
– Você
realmente não sabe?
– Se soubesse,
não estaria perguntando.
– As palavras
para a Maldição da Morte são – o menino engoliu em seco, sua voz virou um
sussurro, e ele manteve as mãos afastadas, como se quisesse deixar bem claro
que não estava segurando uma varinha – Avada Kedavra.
Bem, é claro
que são.
Harry arquivou
aquilo na sua lista crescente de coisas a nunca contar para seu pai, o
Professor Michael Verres-Evans. Já era ruim falar sobre como ele fora a única
pessoa a sobreviver à Maldição da Morte, sem ter que admitir que a tal maldição
era “Abracadabra”.
– Entendo... –
disse Harry, após uma pausa. – Bem, essa foi a última vez que falo aquilo antes
de estalar os dedos. – Apesar de ter produzido um efeito que poderia ser
taticamente útil.
– E por que
você...
– Fui criado
por trouxas, e trouxas acham que isso é uma brincadeira engraçada. Sério, foi o
que aconteceu. Desculpe, mas pode me relembrar qual é o seu nome?
– Sou Ernesto
Macmillan – disse o lufano. Ele ergueu a mão, e Harry a apertou. – É uma honra
conhecê-lo.
Harry se curvou
levemente.
– É um prazer
conhecê-lo, mas vamos pular isso de honra.
E então os
outros meninos se amontoaram à sua volta e houve uma repentina enxurrada de
apresentações.
Quando haviam
terminado, Harry engoliu em seco. Isso seria muito difícil.
– Hum... se
todos puderem me dar licença... Eu tenho algo que gostaria de dizer a
Neville...
Todos os olhos
se voltaram para Neville, que deu um passo atrás, o rosto apreensivo.
– Imagino –
disse Neville numa vozinha fraca – que vá me dizer que eu deveria ter sido mais
corajoso...
– Oh, não, nada
do tipo! – apressou-se Harry. – Não tem nada a ver com isso. É só que,
hum, teve uma coisa que o Chapéu Seletor me disse...
De repente, os
outros meninos pareciam muito interessados, exceto por Neville, que
parecia ainda mais apreensivo.
Parecia haver
algo bloqueando a garganta de Harry. Ele sabia que devia simplesmente falar
logo, e parecia que havia engolido um tijolo que simplesmente entalara no
caminho.
Era como se
Harry tivesse que manualmente controlar seus lábios e produzir cada sílaba
individualmente, mas ele conseguiu afinal.
– Me
de-desculpe. – Ele exalou e respirou fundo novamente. – Pelo que eu, hum, fiz
no outro dia. Você... não precisa ser gentil a respeito nem nada, eu vou
entender se me odiar. E isso não é para eu parecer legal por pedir desculpas,
ou fazer você aceitar o meu pedido. O que eu fiz foi errado.
Houve uma
pausa.
Neville apertou
seus livros mais junto ao peito.
– Por que fez
aquilo? – ele disse em uma voz fina, trêmula. Ele piscou, como se estivesse
contendo lágrimas. – Por que é que todo mundo faz isso comigo, até mesmo
O Menino-Que-Sobreviveu?
Harry de
repente se sentiu menor do que jamais se sentira na vida.
– Me desculpe –
repetiu Harry, a voz agora áspera. – É só que... você parecia estar tão
assustado, era como se houvesse uma placa sobre a sua cabeça dizendo “vítima”,
e eu queria te mostrar que as coisas nem sempre são ruins, que às vezes
os monstros te dão chocolate... pensei que, se te mostrasse isso, você talvez
percebesse que não há tanta coisa assim para ter medo...
– Mas há
– sussurrou Neville. – Você viu hoje, há sim!
– Eles não
teriam feito nada de tão ruim na frente de testemunhas. Sua principal arma é o
medo. É por isso que te fazem de alvo, pois podem ver que tem medo. Eu
queria tirar um pouco do seu medo... te mostrar que o medo era pior que a coisa
em si... ou pelo menos, foi isso que eu disse a mim mesmo, mas o Chapéu Seletor
me disse que eu estava mentindo para mim mesmo e que eu só fiz para me
divertir. Então é por isso que estou pedindo desculpas...
– Você me
machucou – disse Neville. –, agorinha. Quando você me agarrou e puxou para
longe deles. – Neville ergueu o braço e apontou para onde Harry o agarrara. –
Eu posso ficar com um hematoma mais tarde, pela força com que me puxou. Você me
machucou mais do que os sonserinos trombando em mim, na verdade.
– Neville!
– sibilou Ernie. – Ele estava tentando te salvar!
– Me desculpe –
murmurou Harry. – Quando eu te vi, eu só... fiquei muito bravo...
Neville olhou
para ele com firmeza.
– Então você me
puxou com força e se colocou onde eu estava e disse “Olá, eu sou O
Menino-Que-Sobreviveu”.
Harry assentiu.
– Eu acho que
você vai ser muito legal um dia – disse Neville. – Mas nesse momento, não é.
Harry engoliu o
nó repentino que se formara em sua garganta, e se afastou. Ele continuou
descendo pelo corredor até a esquina, então virou à esquerda entrando em outro
corredor, e continuou andando, cegamente.
E o que era
para ele fazer ali? Nunca se irritar? Ele não sabia se teria conseguido fazer
alguma coisa sem ter ficado com raiva, e ninguém sabe o que teria acontecido
com o Neville e os livros dele se fosse o caso. Ele tentaria suprimir a raiva,
falharia, e ela viria à tona novamente. E após toda essa longa jornada de
autodescobrimento, ele aprenderia no fim que sua raiva era parte dele mesmo, e
que apenas ao aceitá-la ele a poderia utilizar sabiamente. Guerra nas
Estrelas era o único universo no qual a resposta era de fato que
você precisava se desconectar completamente de emoções negativas, e alguma
coisa em Yoda2 sempre fizera Harry odiar o monstrinho verde idiota.
Então, o plano
óbvio para ganhar tempo era pular a jornada de autodescobrimento e ir direto para
a parte em que ele perceberia que apenas ao aceitar sua raiva como parte de si
mesmo ele poderia controlá-la.
O problema era
que ele não se sentia fora do controle quando estava com raiva. A frieza
da fúria o fazia se sentir sob controle. Era apenas quando ele refletia
sobre o que acontecera que os eventos como um todo pareciam
ter... saído do controle, de alguma forma.
Ele pensou em
quanto o Mestre do Jogo se importava com esse tipo de coisa, e se teria ganhado
ou perdido pontos. O próprio Harry sentia que perdera pontos, e tinha certeza
de que a senhora na pintura o teria dito que a única opinião que importava era
a dele mesmo.
Harry também
estava pensando se o Mestre do Jogo havia enviado a Professora Sprout. Era um
pensamento lógico: o recado havia ameaçado notificar as Autoridades do Jogo, e
então a professora surgira. Talvez a Professora Sprout fosse a Mestre do
Jogo – a Diretora da Casa Lufa-Lufa seria a última pessoa da qual se
poderia suspeitar, o que deveria colocá-la no topo da lista de Harry. Ele já
havia lido um ou dois livros de mistério, também.
– E então, como
estou me saindo no jogo? – Harry disse em voz alta.
Um pedaço de
papel flutuou acima de cima cabeça, como se alguém houvesse jogado por trás
dele – Harry se virou, mas não havia ninguém lá – e quando Harry se virou para
a frente de novo, o recado já estava se acomodando no chão.
O papel dizia:
|
PONTOS POR ESTILO: |
10 |
|
PONTOS PELA IDEIA: |
-3.000.000 |
|
BÔNUS POR PONTOS PARA A CORVINAL: |
70 |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
-2.999.871 |
|
TURNOS RESTANTES: |
2 |
– Menos três
milhões de pontos? – Harry disse indignado para o corredor vazio. – Isso me
parece excessivo! Quero fazer um apelo às Autoridades do Jogo! E como é que eu
deveria compensar três milhões de pontos nos próximos dois turnos?
Outro bilhete
voou por sobre sua cabeça.
|
APELO: |
RECUSADO |
|
FAZER AS PERGUNTAS ERRADAS: |
-1.000.000.000.000 pontos |
|
TOTAL ATUAL DE PONTOS: |
-1.000.002.999.871 |
|
TURNOS RESTANTES: |
1 |
Harry desistiu.
Com apenas um turno restante, tudo o que podia fazer era dar o seu melhor
chute, mesmo que não fosse muito bom.
– Eu acho que o
jogo representa a vida.
Um último pedaço de papel veio voando, em que se lia:
TENTATIVA FALHA
FALHOU FALHOU FALHOU
AIIIIIIIIIIEEEEEEEEEEEEEE
TOTAL ATUAL DE
PONTOS: MENOS INFINITO
VOCÊ PERDEU O
JOGO
ÚLTIMA
INSTRUÇÃO:
vá ao escritório da Professora McGonagall
A última linha
estava escrita em sua própria caligrafia.
Harry encarou a
última linha por um tempo, e então deu de ombros. Ótimo. Então iria para o
escritório da Professora McGonagall. Se ela fosse a Mestre do Jogo...
Certo,
honestamente, Harry não fazia a menor ideia de como se sentiria se a Professora
McGonagall fosse a Mestre do Jogo. Sua mente estava simplesmente em branco.
Era, literalmente, inimaginável.
Uns dois
quadros depois – não era um trajeto longo, o escritório da Professora
McGonagall não era longe da sala de aula de Transfiguração, pelo menos não em
segundas-feiras em anos ímpares –, Harry se encontrava em frente à porta do
escritório dela.
Ele bateu.
– Entre – disse
a voz abafada da Professora McGonagall.
Ele entrou.
1 pintura de Escher
2 Yoda (Guerra nas Estrelas)

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